Quimera

Na manhã constante que ocupa o seu modo de viver, perdura o anseio do que é curioso e distinto. Acordar d’outro lado do leito, recitar termos nunca ditos ou completar a coleção de matryoshkas, ah, isso já não lhe trazem mais a essência do incomum.

Seu ventre, calabouço das fantasias alegóricas. Sua face, jaula dos pensamentos terminantes. A matéria, em sua primitiva densidade, reduz suas sinceras possibilidades de existência a quatro verbos totalitários: prende, fixa, amarra, acorrenta.

Há, porém, o que liberta. A dor do abuso, a fobia da moral e a ansiedade da indecisão. Sensações tantas que, diante do extenso cansaço, liquefazem suas propriedades em uma massa sui generis.

Logo passou o tempo. Passou o senhor que lhe desconheceu a cara. Passou o batom. “O ultraje cede lugar à audácia”, disseram.

Como uma quimera, ao abrir os olhos, viu refletida no espelho a imagem que apenas lhe era presente no instante em que os fechava. Naquele momento, alegria.

(Ouvindo “Snakadaktal – Too Soon”)

Anúncios

Um comentário sobre “Quimera

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s