Sem memórias, sem lembranças

Eu não me lembro do dia em que nos conhecemos. Honestamente, esvaiu da minha memória tudo o que se passou e hoje não sou capaz de recordar como sua fotografia me extasiou – cabelo encobrindo o rosto, braceletes à mostra -, a forma pela qual eu agi por impulso – despontando do rés-do-chão musical -, de como o nosso diálogo era curto a princípio – palavras supostamente aleatórias -, enfim. Também me esqueci de como contendíamos a distância e de como através dela podíamos sentir um toque recíproco no âmago do nosso sentimento. Caiu no ostracismo todas as nossas madrugadas recheadas de boas conversas silenciosas, todos os meus bons-dias por detrás da porcelana predileta, todos os lírios e espatódeas que transcendiam meus sonhos em direção aos seus. Já não sei mais como eram nossas discussões – simplórias por afetos alheios e por amor. Já não sei mais como era o seu abraço – o mais profundo; singular na maneira de me deixar entontecida de bons sentidos. Já não sei mais como meu otimismo se encontrava completo com seu realismo. Afinal, sou eternamente uma pessoa sem memórias, sem lembranças. Mas volto, em mais uma carta ausente de recordações.

-Na verdade, o que eu realmente não lembro é de quantas vezes lhe disse sobre a tamanha extensão do meu sentimento.

(Ouvindo “Julia Marcell – Carousel”)

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