Flor & cia

Florescia era doce. Muitíssimo doce, por mais que seus olhos vazios, que seus vocábulos amargos, que seu silêncio imutável dissessem o contrário. Florescia era insigne por suas asperezas e pela alma oca, ocre, oculta. Artificialmente, sintetizava as palavras e quase não conversava. Tinha poucos, raros amigos, assim como o homem atrás dos óculos e do bigode. Florescia era sinônimo de angústia e já carregava essa sina no nome. Florescia não floresceu, era apenas a prole de um ato inacabado, descrente, alheado da capacidade de prosseguir. O pretérito perfeito, em Florescia, era imperfeito. Com duas conjugações já se cansava e não fazia mais questão de ser presente, sequer. Florescia era, acima de tudo, somente uma mulher que tinha o hábito de se perder e de andar sozinha, sem apego. Pois o apego a fez parar de sonhar e ser algo que jamais pode ser a alguém: uma flor.

(Ouvindo “Elis Regina – Canto triste”)

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Um comentário sobre “Flor & cia

  1. Uau! Adorei. Acho que me encontro em algumas passagens do texto. Algumas. Linda as duas ultimas frases, bem impactantes e reflexivas: “Florescia era, acima de tudo, somente uma mulher que tinha o hábito de se perder e de andar sozinha, sem apego. Pois o apego a fez parar de sonhar e ser algo que jamais pode ser a alguém: uma flor.”

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